A República contra a Máquina

1- Não o mero viver, mas a busca da vida bela. 2- A Liberdade não se negocia, a Paz sim. "Pode-se imaginar um prazer e força na auto-determinação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se despede de toda crença, todo desejo de certeza, treinado que é em se equilibrar sobre tênues cordas e possibilidades e em dançar até mesmo à beira de abismos. Um tal espírito seria o espírito livre por excelência" (Nietzsche. Gaia Ciência, parágrafo 347)

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quinta-feira, abril 05, 2007

Em enquete, Getúlio Vargas é escolhido "o maior brasileiro de todos os tempos"

Sem dúvida, se fizermos uma comparação com os outros presidentes, Getúlio Vargas foi o político mais importante da história brasileira. Derrubou a república oligárquica do café com leite, criou os direitos trabalhistas e sociais, o salário mínimo, o voto feminino, iniciou a transição do Brasil de um país agrícola voltado para exportação para um país industrial com desenvolvimento de um mercado interno. Valorizando a nacionalidade, o trabalho e iniciativa política, quebrou a inércia da "mão invisível do mercado" que não rompia com o passado colonial e tratava a questão social como assunto de polícia. A política não se reduzia à economia. Poderão criticar dizendo que Getúlio também usou a polícia contra os operários comunistas. É verdade. Mas não se pode esquecer que os mesmos comunistas antes perseguidos por Getúlio o apoiaram em seu segundo governo. Isso porque diante das alternativas reais de poder na época eles preferiram o Getúlio do que os liberais da UDN, que eram contrários aos direitos trabalhistas, pró-EUA, e anti-estatais. A oposição básica daquela época não era entre "republicanos" e "liberais", tal como na classificação que sugeri aqui no blog?

Um artigo interessante do economista Paulo Nogueira Batista Jr foi publicado hoje na Folha sobre esse assunto:

O maior brasileiro de todos os tempos
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.
A escolha de Getúlio Vargas talvez seja mais um sintoma da mudança de estado de espírito do brasileiro
"Escolho este meio de estar sempre convosco."Getúlio Vargas, na carta-testamento.

A FOLHA publicou , no último domingo, os resultados de uma enquete com 200 pessoas de diferentes áreas (políticos, empresários, economistas, religiosos, intelectuais, jornalistas, esportistas e militares). A pergunta era: "Quem foi o brasileiro mais importante de todos os tempos?". Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek encabeçaram a lista dos escolhidos, com 16 e 15 votos, respectivamente.
Talvez seja mais um sintoma da mudança de estado de espírito do brasileiro, que, desencantado com a agenda liberal-internacionalista implantada na década de 90, agora olha com outros olhos o legado nacional-desenvolvimentista. Há dez ou quinze anos, o ambiente era totalmente diferente. No seu discurso de despedida do Senado, em dezembro de 1994, o presidente eleito Fernando Henrique Cardoso teve a imensa pretensão de anunciar o fim da Era Vargas. As suas palavras na ocasião foram um aviso do que nos esperava nos oito anos seguintes: "O caminho para o futuro desejado ainda passa, a meu ver, por um acerto de contas com o passado. Eu acredito firmemente que o autoritarismo é uma página virada na história do Brasil. Resta, contudo, um pedaço do nosso passado político que ainda atravanca o presente e retarda o avanço da sociedade. Refiro-me ao legado da Era Vargas".
Transcorridos pouco mais de 12 anos desde que essas palavras foram proferidas, Getúlio Vargas continua conosco, como ele previu na sua carta-testamento, enquanto políticos como Fernando Henrique foram relegados à proverbial lata de lixo da história (na referida enquete, diga-se de passagem, FHC não recebeu um voto sequer). Nos anos 90, o PSDB foi o principal herdeiro da UDN (União Democrática Nacional), isto é, da corrente liberal, conservadora e pró-Estados Unidos que sempre se opôs (nem sempre democraticamente) a Getúlio e Juscelino. Esse partido, que ostentava ironicamente o adjetivo "democrático" no nome, oscilava entre o golpismo e a participação inepta em eleições presidenciais. A UDN só venceu eleições para presidente da República quando escolheu como candidato o demagogo tresloucado chamado Jânio Quadros. Eleito pelo voto direto em outubro de 1950, Getúlio teve como principal adversário o candidato udenista, o brigadeiro Eduardo Gomes. Gomes já havia sido derrotado pelo general Dutra nas eleições de 1945, ocasião em que o seu lema de campanha fora, inacreditavelmente: "Vote no brigadeiro, ele é bonito e é solteiro"... A minha família contava com partidários ferozes do brigadeiro. Houve quem pressionasse os seus empregados domésticos a votar nele. Quando começaram a ser anunciados os primeiros resultados da eleição, com Getúlio vencendo por larga margem, alguém da família foi até a cozinha e percebeu que os empregados, reunidos na área de serviço, acompanhavam pelo rádio e celebravam, eufóricos. Uma marcha de Carnaval daquele ano prenunciara a volta do político gaúcho à Presidência da República: "Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar".
Grande Getúlio! Na história política brasileira, marcada pelo pragmatismo e pela tendência à conciliação, o seu suicídio em 1954 destoa dramaticamente. Getúlio avisou que não se submeteria ao golpe de Estado que estava sendo deflagrado por setores das Forças Armadas e da UDN. Matou-se com um tiro no coração, em seu quarto, no Palácio do Catete. Deixou-nos a carta-testamento, belo documento, do qual tirei a frase usada como epígrafe. A carta de Getúlio termina assim: "Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. [...] Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História".
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR., 51, economista e professor da FGV-Eaesp, escreve às quintas-feiras nesta coluna. É autor do livro "O Brasil e a Economia Internacional: Recuperação e Defesa da Autonomia Nacional" (Campus/Elsevier, 2005).

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Só um singelo comentário à respeito da parte "apoio dos Comunistas": O que leva um homem que teve sua esposa brutalmente assassinada pelo nazismo, (esposa que ele amava), apoiar o autor da tragédia de sua vida?
Os "tais comunistas" sem muitas alternativas, tiveram que decidir entre apoiarem Satanáz ou Diabo, preferiram a segunda opção, pois este dava míseras gotas d'água como alívio do fogo do inferno.Semelhante ao Senhor de Engenho que dava um prato de comida e uma roupa de trapo pro escravo, sabendo que se assim não fizesse, perderia seu "meio de ganha pão".

03 outubro, 2007 13:07  
Anonymous Maquiavel said...

Também acho uma decisão difícil. Mas na política muitas vezes se é forçado pela situação a sair do caminho da moral. Quem tem algum projeto político de transformação da sociedade, como os comunistas tinham, tem que colocar esta meta acima de qualquer interesse ou desejo particular. Eles tem que ser abnegados, revolucionários profissionais, e Luís Carlos Prestes foi um abnegado que lutava em prol do socialismo.

03 outubro, 2007 18:07  

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